PortuguêsSemânticaFiguras de linguagemCONTEMAX2022Câm. Lagoa Itaenga-PEMédia
A arte silenciosa e o café
Ia escrever sobre café. Já escrevi algumas
vezes sobre esse prazer que hoje me é proibido, por
conta de uma esofagite. Queria refletir sobre o motivo
de o nome das casas de café, muitas vezes, associarse à arte: Café Sabor & Arte, Café e Arte, Arte do
Café, Café, Letras & Arte, etc. Uma amiga me disse
que é porque a cafeína conduz a um estado sublime,
tal qual a arte. Às vezes, o café pode estar amargo; e a
arte também, muitas vezes, tem de ser amarga.
Frequentar cafés, os estabelecimentos, não é um
hábito tão comum no Brasil quanto na Europa ou nos
EUA, onde tem dois cafés a cada quadra. Justo nós
que somos seu maior e talvez melhor produtor.
Nos últimos anos, essa moda parece ter
crescido. Nas grandes cidades, como aqui em Natal, já
há lugares onde se pode sentar sem pressa, pedir um
expresso, ler um livro. E há uma profusão de tipos
para escolher: tem café orgânico, descafeinado,
macchiato … tem até café para quem não quer sentir o
gosto do café. Talvez, o café seja artístico porque
saber tirar o café seja uma arte; que aliás dá nome a
uma profissão que tem curso e sindicato na Itália, é a
do barista (o operador de máquinas de café). A gente
só descobre a diferença quando toma café tirado por
barista, com pó de qualidade, máquina limpa e, sim,
arte no tirar.
Sobre tudo isso eu queria escrever e reabilitar
a minha paixão pelo café. Mas ontem à noite revi o
filme O Rosto, de Bergman, e fui dormir (ou não domir)
pensando na condição do artista enquanto escravo da
tentativa de agradar. E nessa fase de pandemia em
que proliferam lives e mais lives, às vezes, surdas
plataformas de exibicionismo, o quanto talvez não
caiamos na ilusão de que “somos atraentes quando
somos mascarados”, nas palavras do cineasta sueco.
O filme também discute fé e ceticismo, misticismo
versus ciência, só para agregar mais atualidade a
outro tema da película.
A morte, um de seus temas, também está lá,
além da procura de Deus, um Deus silencioso que
deixou os homens à própria sorte – lembremos que o
cineasta era filho de um pastor austero. A solidão da
certeza da morte, em muitos de seus filmes, é aliviada
apenas pelo amor. Além de O Rosto, vemos isso em
Ana e os lobos, Persona, O silêncio, Gritos e
Sussurros, Cenas de um casamento e na mais
psicanalítica de suas películas, plena de imagens
surreais, Morangos Silvestres.
Tinha terminado esta coluna quando soube de
uma homenagem ao cineasta italiano Michelangelo
Antonioni na Itália. Reabro esse texto, apanho uma
xícara de café (não posso, mas para isso existe
omeprazol). Me lembro de que os dois morreram no
mesmo dia, 30 de julho de 2007. Como esquecer a
força que me causou Blow up, fita que vi sozinho, num
quarto escuro, e que até hoje tento entender? Nela,
com sutileza, sempre sutileza, e objetividade, esgarça
o mais tênue limite entre aparência e realidade.
Antonioni das mulheres sábias, do diálogo surdo entre
Mastroianni e Monica Vitti em A Noite, dos espaços
entre as falas para se adivinhar o que pensam as
personagens. Antonioni da noite vazia, escura como
café.
O que mais assemelha os dois cineastas
talvez seja o silêncio, hoje tão raro nesse nosso
descartável cinema barulhento. A força do silêncio, na
amarga arte dos dois. Se Antonioni foi uma xícara
vazia, Bergman foi o café do cinema ocidental.
André Carrico. Disponível em:
https://apartamento702.com.br/cronica-arte-silenciosae-o-cafe/
As figuras de linguagem são recursos que
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