PortuguêsOrtografiaEmprego de letrasIBFC2022Pref. Contagem-MGMédia
Perguntas de criança…
Há muita sabedoria pedagógica nos ditos populares.
Como naquele que diz: “É fácil levar a égua até o meio
do ribeirão. O difícil é convencer ela a beber a água…”
De fato: se a égua não estiver com sede ela não beberá
água por mais que o seu dono a surre... Mas, se estiver
com sede, ela, por vontade própria, tomará a iniciativa de
ir até o ribeirão. Aplicado à educação: “É fácil obrigar o
aluno a ir à escola. O difícil é convencê-lo a aprender
aquilo que ele não quer aprender…”
Às vezes eu penso que o que as escolas fazem com as
crianças é tentar forçá-las a beber a água que elas não
querem beber. Brunno Bettelheim, um dos maiores
educadores do século passado, dizia que na escola os
professores tentaram ensinar-lhe coisas que eles
queriam ensinar, mas que ele não queria aprender. Não
aprendeu e, ainda por cima, ficou com raiva. Que as
crianças querem aprender, disso não tenho a menor
dúvida. Vocês devem ser lembrar do que escrevi,
corrigindo a afirmação com que Aristóteles começa a sua
“Metafísica”: “Todos os homens, enquanto crianças, têm,
por natureza, desejo de conhecer…”
Mas, o que é que as crianças querem aprender? Pois,
faz uns dias, recebi de uma professora, Edith Chacon
Theodoro, uma carta digna de uma educadora e uma lista
de perguntas anexada a ela, que seus alunos haviam
feito, espontaneamente. “Por que o mundo gira em torno
dele e do sol? Por que a vida é justa com poucos e tão
injusta com muitos? Por que o céu é azul? Quem foi que
inventou o Português? Como foi que os homens e as
mulheres chegaram a descobrir as letras e as sílabas?
Como a explosão do Big Bang foi originada? Será que
existe inferno? Como pode ter alguém que não goste de
planta? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Um
cego sabe o que é uma cor? Se na Arca de Noé havia
muitos animais selvagens, por que um não comeu o
outro? Para onde vou depois de morrer? Por que eu
adoro música e instrumentos musicais se ninguém na
minha família toca nada? Por que sou nervoso? Por que
há vento? Por que as pessoas boas morrem mais cedo?
Por que a chuva cai em gotas e não tudo de uma vez?”
José Pacheco é um educador português. Ele é o diretor
(embora não aceite ser chamado de diretor, por razões
que um dia vou explicar…) da Escola da Ponte,
localizada na pequena cidade de Vila das Aves, ao norte
de Portugal. É uma das escolas mais inteligentes que já
visitei. Ela é inteligente porque leva muito mais a sério as
perguntas que as crianças fazem do que as respostas
que os programas querem fazê-las aprender. Pois ele me
contou que, em tempos idos, quando ainda trabalhava
numa outra escola, provocou os alunos a que
escrevessem numa folha de papel as perguntas que
provocavam a sua curiosidade e ficavam rolando dentro
das suas cabeças, sem resposta. O resultado foi parecido
com o que transcrevi acima. Entusiasmado com a
inteligência das crianças – pois é nas perguntas que a
inteligência se revela – resolveu fazer experiência
parecida com os professores. Pediu-lhes que colocassem
numa folha de papel as perguntas que gostariam de
fazer. O resultado foi surpreendente: os professores só
fizeram perguntas relativas aos conteúdos dos seus
programas. Os professores de geografia fizeram
perguntas sobre acidentes geográficos, os professores
de português fizeram perguntas sobre gramática, os
professores de história fizeram perguntas sobre fatos
históricos, os professores de matemática propuseram problemas de matemática a serem resolvidos, e assim
por diante.
O filósofo Ludwig Wittgenstein afirmou: “os limites da
minha linguagem denotam os limites do meu mundo”.
Minha versão popular: “as perguntas que fazemos
revelam o ribeirão onde quero beber…” Leia de novo e
vagarosamente as perguntas feitas pelos alunos. Você
verá que elas revelam uma sede imensa de
conhecimento! Os mundos das crianças são imensos!
Sua sede não se mata bebendo a água de um mesmo
ribeirão! Querem águas de rios, de lagos, de lagoas, de
fontes, de minas, de chuva, de poças d’água… Já as
perguntas dos professores revelam (Perdão pela palavra
que vou usar! É só uma metáfora, para fazer ligação com
o ditado popular!) éguas que perderam a curiosidade,
felizes com as águas do ribeirão conhecido… Ribeirões
diferentes as assustam, por medo de se afogarem…
Perguntas falsas: os professores sabiam as respostas…
Assim, elas nada revelavam do espanto que se tem
quando se olha para o mundo com atenção. Eram apenas
a repetição da mesma trilha batida que leva ao mesmo
ribeirão…
Eu sempre me preocupei muito com aquilo que as
escolas fazem com as crianças. Agora estou me
preocupando com aquilo que as escolas fazem com os
professores. Os professores que fizeram as perguntas já
foram crianças; quando crianças, suas perguntas eram
outras, seu mundo era outro…Foi a instituição “escola”
que lhes ensinou a maneira certa de beber água: cada
um no seu ribeirão… Mas as instituições são criações
humanas. Podem ser mudadas. E, se forem mudadas, os
professores aprenderão o prazer de beber de águas de
outros ribeirões e voltarão a fazer as perguntas que
faziam quando eram crianças.
(Adaptado do texto “Perguntas de criança…” de Rubem Alves,
Folha (sinapse) – terça-feira, 24 de setembro de 2002, p.29)
Leia essa passagem do texto: ‘uma carta digna
de uma educadora e uma lista de perguntas
“anexada a ela”, que seus alunos haviam feito’,
pode-se substituir a expressão entre aspas
duplas por uma das alternativas, assinale-a.
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