PortuguêsSemânticaSinonímia e antonímiaIBADE2022Pref. Costa Marques-ROMédia
TEXTO I
Mestre Camisa: dedicação à capoeira
Baiano radicado no Rio, Mestre Camisa levou a capoeira a mais
de 60 países
RIO - “Não tem erro. É só dirigir até Itaboraí e pegar a
estrada para Cachoeiras de Macacu. Me liga quando
estiver chegando que eu espero vocês na segunda
queijaria”, diz o Mestre Camisa, pelo telefone, informando
as coordenadas do sítio onde ele mora e organiza
encontros nacionais e internacionais e aulas de capoeira. O
sotaque é a mistura equilibrada de um baiano radicado no
Rio que, há 16 anos, foi morar no interior do estado.
Encontramos o capoeirista na RJ-116 e seguimos sua
picape numa estradinha de barro espremida entre uma
encosta e um charco. Logo depois de um enorme pé de
açaí, fica a entrada do sítio, um lugar idílico, onde pavões,
araras, gansos e papagaios ficam soltos o tempo todo.
Voam embora, mas voltam. Há uma capelinha de São Jorge
no pé de um pequeno morro e, espalhados num imenso
gramado, amplos quiosques construídos para o treino da
arte que, como define Camisa, “engravidou na África e
nasceu no Brasil”.
— Este lugar é um quilombo moderno, de resistência
contra o estresse da cidade grande — explica José Tadeu
Carneiro Cardoso, de 58 anos, que batizou o local de
Centro Educacional Mestre Bimba, em homenagem ao
criador da chamada capoeira regional e seu mentor na
adolescência em Salvador. — Luto para preservar a
memória dele. A capoeira é patrimônio imaterial do Brasil.
A melhor forma de manter sua história é cuidar do legado
dos mestres.
Camisa deixa seu pequeno paraíso e vem ao Rio pelo
menos duas vezes por semana, para acompanhar aulas e
participar de reuniões. Está sempre confabulando algo. No
momento, organiza o recém-criado Instituto Mestre
Camisa e trabalha na produção do festival que, em agosto,
vai comemorar os 25 anos da Associação Brasileira de
Apoio e Desenvolvimento da Arte-Capoeira (Abadá-Capoeira), criada por ele. Mais de cinco mil “seguidores”
estarão na Fundição Progresso, na Lapa, para três dias de
shows e atividades envolvendo as artes da capoeira
(dança, luta, música, artesanato etc.).
Vai ser uma celebração da própria vida de Camisa. Ele
tinha 16 anos quando veio parar no Rio ao final de uma
turnê que costurou o país com apresentações de capoeira
e música baiana. Antes de criar seu próprio método de
ensino e filosofia, o nordestino integrou o Grupo Senzala
durante anos. O primeiro aluno foi um gaúcho que tinha
visto o show do “Furacões da Bahia”. Na época, Camisa
ainda morava num quartinho da academia em Laranjeiras
onde dava aulas. Hoje, ele bate no peito ao dizer que
ensinou capoeira a milhares de pessoas no mundo.
O capoeirista já esteve em mais de 60 países para ministrar
palestras e cursos. Este ano, foi inaugurado o Complexo
Residencial Mestre Camisa, conjunto habitacional na
cidade de Romilly-sur-Seine, na França. Por causa do seu
trabalho de pesquisa e divulgação da cultura brasileira,
recebeu até título de doutor honoris causa da
Universidade Federal de Uberlândia. Além disso, a Abadá-Capoeira está envolvida em mais de 150 projetos sociais.
São cerca de 15 mil pessoas beneficiadas com aulas
gratuitas. Há ainda campanhas sociais, com nomes como
“Capoeirista sangue bom”, de doação de sangue para o
Hemorio, e “Meu berimbau pede paz”, contra a violência.
Mestre Camisa virou uma espécie de diplomata da cultura
nacional.
— Pessoas de vários países aprendem a jogar e querem
saber como surgiu nossa arte. A história da capoeira é mais
importante que o jogo. O que é mais bonito que o homem
lutar pela liberdade? — argumenta Camisa, referindo-se ao
nascimento da luta, criada por escravos para se defender
dos feitores dos engenhos. — Como eu só falo português
nas aulas, os gringos aprendem até o idioma. Não tem
tradução para palavras como ginga e manha.
Sob a perspectiva da divulgação da capoeira, o sociólogo e
professor Muniz Sodré atribui ao baiano lutador a sucessão
do Mestre Bimba, de quem também foi pupilo.
— Camisa tem uma cabeça universitária sem nunca ter
passado por faculdade. Sabe misturar a prática do jogo
com o sentido de preservar a cultura. Além disso, é um
“poliartista”, que luta, canta, compõe e toca bem o
berimbau — elogia Sodré. — A capoeira faz mais pela
cultura brasileira no exterior do que adidos culturais em
embaixadas.
Em suas viagens, sempre como convidado para eventos,
Camisa viveu de tudo. Terremotos no Japão a bombardeios
em Israel. Durante um voo doméstico em Angola, ficou
sabendo que o aeroporto da cidade de Benguela, para
onde estava indo, havia sido atacado (o país africano
estava em guerra civil). Hoje, a frequência das viagens
diminuiu bastante. O mestre prefere ficar perto da mulher
e dos três filhos, com idades de 33, 23 e 13 anos, todos de
casamentos diferentes.
— Eles moram no Rio, mas passam o fim de semana
comigo. Chega de viajar tanto. Sem gastar um centavo do
meu bolso, percorri o mundo. Agora, deixo as pessoas
virem ao meu quilombo respirar ar puro.
(O Globo, 2013)
“Não tem tradução para palavras como ginga e manha .”, o
antônimo da palavra “ manha ” é:
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