PortuguêsOrtografiaEmprego do hífenIBADE2022Pref. Costa Marques-ROMédia
TEXTO II
MORRA BEM
Um dos meus textos mais conhecidos chama-se A
morte devagar, que publiquei na véspera de Finados de
2000 e que logo ganhou o mundo com o título Morre
Lentamente. No início foi equivocadamente atribuído a
Pablo Neruda, por isso o espalhamento e seu sucesso.
Passado tanto tempo, já me devolveram a autoria e hoje
esse texto virou canção na França e entrou no roteiro de
um filme italiano – sem falar nas traduções para o
espanhol, que alguns desconfiados ainda acreditam ser seu
idioma de origem.
Na época, aproveitando a proximidade do Dia dos
Mortos, escrevi puxando as orelhas (não os pés) daqueles
que morrem em vida: os que evitam o risco, a arte, a
paixão, o mistério, as viagens, as perguntas - apenas
atravessam os dias respirando.
Hoje, dia de Finados, 17 anos depois, reitero: não
morra lentamente. Morra rápido, de uma vez só, sem
delongas. Morra quantas vezes for necessário.
Quando fiz meu mapa astral, ouvi da astróloga:
“Você tem dificuldade de lidar com ambivalências, gosta
das coisas esclarecidas, para o bem ou para o mal”. E ela
concluiu: “Morrer é algo que você faz bem. Ficar em
banho-maria, não”.
Sombrio? Soturno? Ao contrário. Entendi com
clareza sobre o que ela falava. Morte é a antessala da luz.
Não a morte definitiva, que encerra o assunto, mas as
diversas mortes em vida, os vários falecimentos a que
somos submetidos. É preciso morrer bem enquanto se
vive.
Cada final de amor é uma pequena morte, por
exemplo. Morre lentamente quem fica alimentando
fantasias de retorno, planejando vinganças, cultivando
lembranças com naftalina. Sei que dói, mas não deixe esse
amor definhando na UTI, dê logo a extrema-unção, acabe
com isso, morra rápido, morra de vez, para que possa
renascer ligeiro também.
Finais de carreira, finais de amizade, finais de
ciclo: mortes que acontecem aos 30, aos 40 anos, em
qualquer idade. Dói, dói demais, não estou negando a dor,
mas o que você prefere? As dúvidas, as ilusões, o apego?
Prefere a sobrevida a uma vida nova? Confie na
experiência de quem já se enterrou algumas vezes. Morra.
Morra bem morrido, baby.
Final de juventude, final da faculdade, final de
uma viagem de intercâmbio: vai ficar agindo como se
tivesse 18 anos para sempre? Mate o garoto, renasça
adulto.
A morte daqueles que amamos é trágica, mas
nossa própria morte, não. Ela é uma contingência de nossa
longa existência, e essa não é uma frase cínica,
simplesmente é assim. Nossos sonhos morrem. Nosso
passado morre. Nossas crenças, nossas fases. Fazer o quê?
Morra bem. Morra com categoria. Com dignidade. O
menos lentamente possível. Morra de morte bem
arrematada, uma, duas, três mil vezes, morra em definitivo
sempre que for exigido, para sobrar tempo.
Tempo para a vida em frente.
(O GLOBO, Marta Medeiros )
No trecho “Morte é a antessala da luz.”, o termo em
destaque não recebe hífen pelo mesmo motivo que:
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