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INSTRUÇÕES -A questão é relacionada ao texto abaixo.
Leia-o com atenção antes de responder a elas.
Demagogia eleitoreira
A questão dos médicos estrangeiros caiu na vala da irracionalidade. De um lado, as
associações médicas cobrando a revalidação dos diplomas obtidos no exterior. De outro,
o governo, que apresenta o programa como a salvação da pátria. No meio desse fogo
cruzado, com estilhaços de corporativismo, demagogia, esperteza política e agressividade
contra os recém-chegados, estão os usuários do SUS. Acompanhe meu raciocínio,
prezado leitor.
Assistência médica sem médicos é possível, mas inevitavelmente precária. Localidades
sem eles precisam tê-los, mesmo que não estejam bem preparados. É melhor um médico
com formação medíocre, mas boa vontade, do que não ter nenhum ou contar com um
daqueles que mal olha na cara dos pacientes.
Quando as associações que nos representam saem às ruas para exigir que os
estrangeiros prestem exame de revalidação, cometem, a meu ver, um erro duplo.
Primeiro: lógico que o ideal seria contratarmos apenas os melhores profissionais do
mundo, como fazem americanos e europeus, mas quantos haveria dispostos a trabalhar
isolados, sem infraestrutura técnica, nas comunidades mais excluídas do Brasil?
Segundo: quem disse que os brasileiros formados em tantas faculdades abertas por
pressão política e interesses puramente comerciais são mais competentes? Até hoje não
temos uma lei que os obrigue a prestar um exame que reprove os despreparados, como
faz a OAB. O purismo de exigir para os estrangeiros uma prova que os nossos não fazem
não tem sentido no caso de contratações para vagas que não interessam aos brasileiros.
Esse radicalismo ficou bem documentado nas manifestações de grupos hostis à chegada
dos cubanos, no Ceará. Se dar emprego para médicos subcontratados por uma ditadura
bizarra vai contra nossas leis, é problema da Justiça do Trabalho; armar corredor polonês
para chamá-los de escravos é desrespeito ético e uma estupidez cavalar. O que
ganhamos com essas reações equivocadas? A antipatia da população e a acusação de
defendermos interesses corporativistas.
Agora, vejamos o lado do governo acuado pelas manifestações de rua que clamavam por
transporte público, educação e saúde. Talvez por falta do que propor nas duas primeiras
áreas, decidiu atacar a da saúde. A população se queixa da falta de assistência médica?
Vamos contratar médicos estrangeiros, foi o melhor que conseguiram arquitetar. Não é de
hoje que os médicos se concentram nas cidades com mais recursos. É antipatriótico? Por
acaso, não agem assim engenheiros, advogados, professores e milhões de outros
profissionais?
Se o problema é antigo, por que não foi encaminhado há mais tempo? Por uma razão
simples: a área da saúde nunca foi prioritária nos últimos governos. Você, leitor, se
lembra de alguma medida com impacto na saúde pública adotada nos últimos anos? Uma
só, que seja?
Insisto que sou a favor da contratação de médicos estrangeiros para as áreas
desassistidas, intervenção que chega com anos de atraso. Mas devo reconhecer que a
implementação apressada do programa Mais Médicos em resposta ao clamor popular,
acompanhada da esperteza de jogar o povo contra a classe médica, é demagogia
eleitoreira, em sua expressão mais rasa.
Apresentar-nos como mercenários que se recusam a atender os mais necessitados,
enquanto impedem que outros o façam, é vilipendiar os que recebem salários aviltantes
em hospitais públicos e centros de atendimentos em que tudo falta, sucateados por
interesses políticos e minados pela corrupção mais deslavada.
A existência no serviço público de uma minoria de profissionais desinteressados e
irresponsáveis não pode manchar a reputação de tanta gente dedicada. Não fosse o
trabalho abnegado de médicos, enfermeiras, atendentes e outros profissionais da saúde
que carregam nas costas a responsabilidade de atender os mais humildes, o SUS sequer
teria saído do papel.
A saúde no Brasil é carente de financiamento e de métodos administrativos modernos que
lhe assegurem eficiência e continuidade.
(Varela. D. , Folha de S. Paulo, 07/09/2013. Texto adaptado)
“Se o problema é antigo, por que não foi encaminhado há mais tempo?”
Desconsideradas as alterações de sentido, assinale a alternativa que contém um ERRO
de ortografia.
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