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MONTADA NA SELA DO IMPOSSÍVEL
Helena Macedo em depoimento para Maryane
Martins
Comecei trabalhando desde os 15 anos.
Aos 13, aprendi a costurar. A minha mãe é
costureira, e eu com essa idade já ajudava a fazer
roupas. Assim começou. Na maioria dos meses,
não tinha tanto serviço. Eu queria ganhar
dinheiro, comprar minhas coisas, ajudar em casa.
Eu e meus irmãos sempre trabalhamos, desde
cedo. Eles carregavam frete. Rogério, com 11
anos, trabalhava com aço, fazendo espora. Faz 21
anos que ele foi assassinado. Hoje, só tenho 6
irmãos vivos.
Um dia, conversando com Ritinha, minha
vizinha, disse que queria um emprego pra ganhar
dinheiro e trabalhar o tempo todo. E ela, vendo
aquela menina, disse: “Vamos pra tenda que eu
arrumo um emprego pra você.” Lá eram ela, outra
mulher e vários homens. Não tinha nenhuma
criança, só adultos. Eu trabalhava à tarde, às vezes
à noite. Estudava de manhã. Nunca parei os
estudos.
Primeiro, fui ajudante. Fazia mandado,
comprava mercadoria, varria a tenda, essas coisas
simples. Depois, ainda com 15 anos, me tornei
artesã. Tive a oportunidade de aprender. Ritinha
é uma pessoa que eu considero muito, a seleira
pioneira de Cachoeirinha e que ensinou a tantos,
e também foi minha professora. Agradeço pela
oportunidade que ela me deu. Trabalhei com ela
por uns 3 ou 4 meses. Depois, com o tempo, fui
trabalhar com um irmão meu. E meu pai criou
uma tenda.
Fazia mais de um ano que eu estava
trabalhando com couro, mas ainda não fazia sela.
Fazia as peças, e meu irmão montava a sela, até
que um dia ele levou uma queda de cavalo. Meu
pai falou que eu teria que dar um jeito pra
terminar o trabalho do meu irmão. Eu disse que
não sabia, e ele mandou eu me virar. Ele sempre
foi um homem muito rude, bruto. Falou que eu
tinha que fazer, que montar. Eu aprendi quase na
marra. E assim comecei a fazer selas.
Meu pai sempre olhava todas as selas que
eu montava e ficava tentando arrancar as coisas,
pra ver se tava boa ou se tava ruim. Hoje eu
entendo que foi uma maneira de ele me ensinar.
Mas tem formas mais fáceis de fazer isso. Os
homens trabalhavam para ele e faziam a sela por
100 reais. A minha só era 50, metade do preço.
Era porque eu era mulher, filha dele e ainda
morava em casa. Ser mulher é sofrer preconceito
o tempo todo, não só na minha profissão.
O negócio ficou tão difícil que um dia eu e
meu pai brigamos e vim trabalhar no quartinho no
fundo da casa da minha mãe. Não queria
trabalhar na tenda porque tinha muito homem e
isso me incomodava. Em casa, poderia fazer sela
pra quem eu quisesse. Meu pai quando me viu
trabalhando em casa falou que eu tinha que fazer
sela pra ele. Bati o pé e falei que não fazia nem
queria o serviço mais barato. Meu pai disse: “Já
que você não quer fazer sela pra mim, ou você
sobe ou desce, mas na minha casa você não mora
mais.” Nessa discussão, minha mãe entrou no meio e disse que eu nem subia nem descia, que
eu iria ficar em casa. Nem saí de casa nem fiz mais
sela pra ele. Agradeço até hoje por minha mãe ter
me defendido.
Montava a sela durante a semana e às
quintas levava pra feira. Às vezes vendia, outras
não. Era um sofrimento que se fosse pra escrever
dava um livro. Deixei de ser humilhada pelo meu
pai, mas quando chegava na feira, cansada depois
de trabalhar a noite toda, os homens ficavam
perguntando quanto era a sela, pedindo
desconto. Diziam: “Ali tem uma do mesmo jeito
só que mais barata.” Aí eu dizia: “Compre, vá
comprar. Eu levo de volta pra casa.” Desde
pequena eu aprendi a me defender, aprendi que
a vida é difícil. O mundo é difícil, e você tem que
lutar pelo que você quer. Já trabalhei para selarias
em que precisava trabalhar 20 horas por dia.
Acordava às cinco da manhã e ia até meia-noite
trabalhando. Não conseguia dividir meu tempo,
trabalhava muito.
Hoje, eu faço o que eu gosto e para quem
me valoriza. Trabalho para duas lojas, uma em
Cachoeirinha-PE e outra em Santa Luzia-PB. Uma
sela minha custa 1000 reais. Meus clientes brigam
pelas minhas selas. Digo que se você achar o
encontro das costuras em uma delas, eu lhe dou
uma de volta. Ninguém encontra. Sou muito
perfeccionista. Porque se eu vir qualquer
probleminha, desmancho e faço tudo de novo. Só
consigo fazer duas selas por semana. Quando
mando para as selarias, vai do Brasil e pro mundo.
O céu é o limite.
Minha tenda fica no primeiro andar da
minha casa, que divido com uma amiga. Prefiro
chamar amiga porque é fofo, mas ela é minha
companheira. Eu a conheci em 1999. Se você
perguntasse para mim se eu faria tudo de novo,
eu diria que sim. Encontraria ela do mesmo jeito,
passaria os mesmos perrengues. Foi difícil, mas eu
não desisto do que eu quero.
Se eu ganhasse na Mega-Sena e ficasse
milionária, eu ainda falaria de onde eu saí. Toda
cidade tem alguma coisa, Cachoeirinha tem o
couro e o aço. Tudo que eu tenho, todos sonhos
que eu já realizei e os que eu vou realizar, são só
por conta da minha arte. Eu poderia até fazer
outra coisa, mas eu amo o que faço. A vida toda
trabalhei. Nunca tive férias. Tenho 47 anos. Daqui
pra frente o que ganhar é lucro. Quero comprar
um carro, viajar, conhecer Foz do Iguaçu,
Fernando de Noronha, a Europa. O que a gente
não pode é deixar de sonhar. Sonhar e trabalhar
para realizar.
Meu nome é Helena Macêdo. Sou
fabricante de sela de vaquejada e tenho essa
profissão há 32 anos. É uma coisa que eu gosto,
que eu amo de paixão. Não trabalho só pelo
dinheiro. Gosto das coisas impossíveis.
Adaptado de : https://piaui.folha.uol.com.br/montada-nasela-do-impossivel/
Acessado em: 20/09/2022.
A expressão “Já que você não quer
fazer sela pra mim, ou você sobe ou desce, mas na
minha casa você não mora mais” utiliza-se da
seguinte figura de linguagem:
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