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"Em 1987, eu trabalhava no Museu do Índio
(FUNAI/RJ) quando participei da organização de um
encontro de professores da etnia Karajá, reunindo
representantes dos subgrupos Karajá, Javaé e
Xambioá. Na preparação daquele encontro, que se
realizaria em julho de 1988, na aldeia Karajá de Santa
Isabel do Morro, na Ilha do Bananal, visitei várias
aldeias da etnia, inclusive aquelas mais ao norte, do
subgrupo Xambioá. Ao chegar pela primeira vez na
aldeia do PI Xambioá, já estudava a língua Karajá há
algum tempo, tendo defendido no ano anterior minha
dissertação de mestrado sobre aspectos da
gramática dessa língua. Por isso, arrisquei-me a
tentar conversar em Karajá com as crianças que
vieram em um bando alegre me receber, quando o
jipe da FUNAI, que me trazia, parou no posto
indígena, próximo à aldeia.
- 'Aõhe!' saudei em Karajá. 'Dearã Marcus Maia
wanire' , me apresentei. Imediatamente cessou a
algazarra e fez-se um silêncio pesado entre os
indiozinhos. Entreolhavam-se desconfiados e sérios.
'Kaiboho aõbo iny rybé tieryõtenyte?' Vocês não
sabem a língua Karajá, perguntei. Ameninada, então,
se afastou em retirada estratégica. Fui, em seguida, à
casa de uma líder da comunidade, a Maria Floripes
Txukodese Karajá, a Txukó, me apresentar. Lá, um
dos meninos me respondeu: - 'A gente não fala essa
gíria não, moço!' Outro, maiorzinho, concordou: - 'Na
cidade, a gente diz que nem sabe de índio, que nem
fala o indioma , senão o povo mexe com a gente' .O
preconceito de que os indígenas brasileiros são alvo
por parte de muitos brasileiros não indígenas é, sem
dúvida, um dos fatores responsáveis pelo
desprestígio, enfraquecimento e desaparecimento
de muitas línguas indígenas no Brasil. Durante minha
estada nas aldeias Xambioá, discuti com anciãos,
lideranças, professores e alunos, a situação de perda
da língua em relação a aldeias em que a língua e a
cultura Karajá encontram-se ainda fortes. É
interessante notar que, durante a minha temporada
na aldeia, quando continuei sempre a exercitar o meu
conhecimento da língua indígena, era
frequentemente procurado por grupos de crianças e
jovens, que vinham me mostrar palavras e frases que
conheciam e testar o meu entendimento delas. Os
mesmos meninos que haviam inicialmente
demonstrado sentir vergonha de falar Karajá,
dizendo-me nem conhecer 'aquela gíria' ,
assediavam-me agora, revelando um conhecimento
latente da língua indígena muito maior do que eles
próprios pareciam supor! Divertiam-se em
demonstrar àquele tori (o não índio, na língua Karajá)
que valorizava e tentava usar a língua Karajá que, na
verdade, conheciam, sim, a língua indígena. Vários
pais também vieram me relatar sua grande surpresa
por verem as crianças curiosas, perguntando e se
expressando na língua Karajá, não só pronunciando palavras e frases inteiras, como até ensaiando
diálogos e narrativas tradicionais."
(...)
(Trecho retirado da introdução do livro - Manual de Linguística:
subsídios para a formação de professores indígenas na área
de linguagem. Maia 2006)
"O preconceito de que os indígenas brasileiros são
alvo por parte de muitos brasileiros não indígenas é,
SEM DÚVIDA, um dos fatores responsáveis pelo
desprestígio, enfraquecimento e desaparecimento de
muitas línguas indígenas no Brasil."
O autor faz uso do termo "SEM DÚVIDA" com a
finalidade de:
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