Verdades inconvenientes sobre a indústria dos remédios
A reportagem da SUPER encontrou Antônio na
recepção do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas
de São Paulo. Camisa social branca, sapatos engraxados, gel
no cabelo e a malinha preta ao lado. Simpático e
comunicativo, explicou seu trabalho ao repórter: Antônio é
representante da indústria farmacêutica. Sua tarefa é levar
aos médicos informações sobre remédios. Mais que isso:
convencer os médicos a receitarem as marcas que ele
representa.
Nessa missão, nem sempre dados científicos são
suficientes: além das amostras grátis, ele leva brindes e, às
vezes, convites para almoços ou ofertas de viagens a
congressos com tudo pago. Bom papo também conta. “O
mais importante é o relacionamento. O médico receita o
meu produto porque gosta mais de mim do que de outro
representante”, diz ele.
Tanta proximidade pode parecer promíscua, mas
não é crime. Segundo o Código de Ética Médica, o problema
começa quando, para fazer com que o médico goste mais
dele do que dos outros, o propagandista propõe vantagens
mais palpáveis. Dinheiro. “Se o médico ganha um cheque,
ele se compromete a prescrever 3 vezes o valor em receitas
de um medicamento”, exemplifica Antônio. Médicos que
não quiseram se identificar confirmam a prática. “Já recebi
propostas de viagens em troca de prescrever remédios”, diz
um psiquiatra. As farmácias asseguram o trato. “Há
farmacêuticos e balconistas que são pagos para xerocar a
receita ou anotar o nome do médico”, diz Antônio. É o que
eles chamam de “caderninho”, escala final de um ciclo de
propaganda, acordos e troca de interesses em que ganham
médicos, farmacêuticos e os donos de laboratório.
Entre os profissionais de saúde, histórias como essa
são tão conhecidas quanto difíceis de comprovar. Os
representantes das indústrias afirmam agir dentro da lei.
“Nós temos o direito legítimo de promover nossos produtos,
como qualquer outro setor da economia”, afirma Gabriel
Tannus, presidente da Associação da Indústria Farmacêutica
de Pesquisa, que tem entre seus associados 8 dos 10
laboratórios que mais faturam no mundo.
Como qualquer outro setor da economia, a
indústria farmacêutica visa o lucro . Nada de errado com
isso, e tem dado certo: em 2008, ela movimentou US$ 725 bilhões – o Brasil faturou US$ 12 bilhões. Só a fabricação da
aspirina movimenta US$ 700 bilhões por ano. Seu princípio
ativo, o ácido acetilsalicílico, é considerado um dos produtos
mais bem-sucedidos da história do capitalismo.
Para que isso seja possível, é preciso saber vender.
“A indústria farmacêutica é tudo, menos uma instituição
filantrópica”, diz Fernando Italiani, autor do livro Marketing
Farmacêutico. Fernando já foi gerente de marketing de
laboratórios e hoje dá cursos de vendas e planejamento
estratégico para funcionários de laboratórios e farmácias.
Um dos tópicos-chave de suas aulas é a fidelização
dos médicos. Para Fernando, aquela tática clássica de dar
brindes, viagens e inscrições em congressos já está
ultrapassada. “Os médicos estão mal-acostumados. Isso já
não diferencia nenhum laboratório”, afirma. Fernando
propõe investir em educação. “Muitos médicos não têm
formação em gestão nem em finanças. Fornecer esse
conhecimento é ouro. Quando eu percebi que uma viagem
para a Costa do Sauípe não tinha dado certo, fiz eventos
focando o conhecimento técnico. Gastei 1/3 do valor e tive o
dobro do retorno.” É o que Fernando chama de marketing
“sustentável”: mais difícil de ser copiado e com resultado
garantido e prolongado.
O que acontece na indústria farmacêutica é o que
acontece em qualquer grande negócio em que a
recomendação de alguém é fundamental para o êxito do
negócio: para que toquem sua música, as gravadoras
assediam as rádios; para que falem bem de seu produto, as
empresas cercam os jornalistas de regalias. É a prática
conhecida como jabá. Não necessariamente a oferta de
gentilezas influenciará o DJ, o jornalista ou o médico. Mas
convenhamos: se não servisse para nada, as empresas não
gastariam com isso. Às vezes, o profissional é influenciado
sem perceber. Em 2001, uma pesquisa feita com 105
médicos do Centro Médico para Veteranos de Guerra de São
Francisco, na Califórnia, mostrou que 61% dos entrevistados
não se consideravam influenciados pela promoção da
indústria. “É difícil incutir uma consciência crítica nos
médicos para que eles não se deixem seduzir por essa
propaganda”, diz Roberto Luiz D’Ávila, corregedor do
Conselho Federal de Medicina. Quando isso acontece, a
base de todo o tratamento é colocada em risco: a confiança
no médico. [...]
(http://super.abril.com.br/saude/verdades-inconvenientes-sobre-a-industria-dos-remedios/).
No sétimo parágrafo, está em destaque a palavra "tópicos-chave", em que se empregou corretamente o hífen. Sobre o
hífen, leia o texto a seguir.
BASE XV – Do hífen em compostos, locuções e
encadeamentos vocabulares
1º) Emprega-se o hífen nas palavras compostas por
justaposição que não contêm formas de ligação e cujos
elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou
verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e
mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o
primeiro elemento estar reduzido [...].
2º) Emprega-se o hífen nos topónimos/topônimos
compostos, iniciados pelos adjetivos grã, grão ou por forma
verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo [...].
3º) Emprega-se o hífen nas palavras compostas que
designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não
ligadas por preposição ou qualquer outro elemento [...].
4º) Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios
bem e mal, quando estes formam com o elemento que se
lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal
elemento começa por vogal ou h. [...].
5º) Emprega-se o hífen nos compostos com os elementos
além, aquém, recém e sem [...].
Acordo ortográfico da língua portuguesa: atos internacionais e normas
correlatas. – 2. ed. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições
Técnicas, 2014, pp. 24-25.
Em "tópicos-chave", o emprego do hífen justifica-se pela
regra contida em:
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