PortuguêsSemânticaPolissemia e ambiguidadeIGEDUC2025Pref. Calumbi-PEMédia
O texto seguinte servirá de base para responder à questão,
A fila do mineiro
Um comportamento é digno de atenção aqui. Mineiro
não forma fila. Ele faz um semicírculo. Um paredão que
avança lentamente, ocupando a extensão inteira da calçada. Jamais vi uma fila indiana em Minas, um atrás
do outro, como no padrão internacional.
O conjunto irradia espontaneamente para os cantos e
laterais. Não se dispõe de maneira uniformizada, em
linha reta, como acontece nos demais Estados do país.
Rompe-se com aquele sentimento de rebanho,
conduzido pelo vaqueiro em fileira devido às trilhas
estreitas e obstáculos das pastagens. É uma fila livre da
fila. Todos sabem quando é a sua vez, não há
desrespeito ao espaço alheio, à preferência do
antecessor.
De modo nenhum, esse movimento de se espalhar é um
jeito criativo de furar fila. Existe em cada um a
consciência do momento em que se chegou ali e a
fixação mental de seu lugar.
A fila se distribui horizontalmente em qualquer ambiente.
Pode ser numa unidade de saúde, numa entrevista de
emprego, numa balada, na entrada de um restaurante,
para realizar algum concurso, para ingressar na escola,
para colher autógrafos de um autor, para entrar num
estádio ou teatro.
Todo mineiro dá um passo à frente antes da hora,
transgredindo a delimitação prévia. Pensei
primeiramente que era um recurso para ampliar o campo
de visão e espiar o quanto faltava para o final. Até que
reparei que tem mais a ver com o afeto: ele reencontra
amigos e colegas na fila e puxa assunto lado a lado.
Arruma um grupo. Arruma uma panelinha. Arruma um
bando. Arruma um clube da esquina.
Tanto que é o único povo no Brasil que conversa no
elevador. Fila, então, é sua chance de começar um
comício.
É impressionante a sua capacidade de criar raízes nas
casualidades. Mesmo quando não conhece ninguém,
resgata algum parentesco ou afinidade perguntando
onde a pessoa mora, onde nasceu, onde estudou, com o
que trabalha. O sobrenome desperta uma família que
desemboca num laço remoto, ou uma cidade lembra um
parente que resulta numa observação espirituosa, e se
estabelece a magia. O mineiro vai questionando
exaustivamente, rodeando, numa investigação da
intimidade sem precedentes. Sempre acaba achando um
ponto em cruz para tricotar coincidências, para firmar
convergências.
É o que batizo de "visita de rua". Mineiro não realiza
visitas unicamente em casa, mas também efetua
abordagens no meio de seu trajeto, pescando colóquios
e audiências.
Assim o tempo passa mais rapidamente, o desconforto
se transforma em prazer, e nem parece que você estava
aguardando algo. Fica, inclusive, com o gosto amargo de
ter que se despedir das amizades. É comum se mostrar
contrariado ao ser chamado para o guichê ou balcão. Só
em Minas, a fila é melhor do que o atendimento.
Fabrício Carpinejar
https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2024/9/27/a-fila-do-mineiro
No texto "A fila do mineiro", de Fabrício Carpinejar,
observa-se a riqueza de recursos semânticos utilizados
para descrever o comportamento cultural dos mineiros
em filas. Com base nos conceitos de sinonímia,
antonímia, homonímia, paronímia, polissemia e
ambiguidade, analise as afirmativas e escolha a
alternativa INCORRETA:
ANo trecho "É uma fila livre da fila", a palavra "fila"
apresenta um caso de polissemia, pois é empregada
com significados diferentes no mesmo contexto.
BO uso da palavra "paredão" no início do texto é um
caso de homonímia com seu uso comum para
descrever formações rochosas ou superfícies
verticais.
CNo trecho "Só em Minas, a fila é melhor do que o
atendimento", ocorre ambiguidade, pois não está
claro se a fila é literal ou metafórica.
DO uso da expressão "rompe-se com aquele
sentimento de rebanho" utiliza a palavra "rebanho"
de forma metafórica, o que reforça um caso de
sinonímia com "grupo organizado".
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