Questão de Sintaxe — UERJ · 2025

PortuguêsSintaxeTermos da oraçãoUERJ2025UERJMédia
TEXTO: Jorge Amado e o tribunal das redes Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas, 33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu. “Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer lhe conhecer”. Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido. Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas, graças a Deus, o assinou e me deu. Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar; estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram, com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo de maneira muito especial. Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor. Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc. Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2 à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante. Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura. Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o tribunal das redes. VIEIRA Jr., Itamar. Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado). Geralmente, o adjunto adverbial pode ocupar diferentes posições no período em que se encontra. O período em que a mudança na posição do adjunto adverbial “recentemente” mantém inalterado o significado que ele acrescenta ao trecho “Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o ‘cancelamento’ do escritor.” (l. 27) é:
  1. ARecordei tudo isso porque vi circular nas redes sociais recentemente o “cancelamento” do escritor
  2. BRecentemente recordei tudo isso porque vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor
  3. CRecordei tudo isso recentemente porque vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor
  4. DRecordei recentemente tudo isso porque vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor

Qual é o gabarito? Responda esta questão no acervo aberto do Concursix e veja na hora se acertou, com o comentário da resposta. São 5 respostas por dia sem conta e 30 por dia com a conta gratuita.

Responder e ver o gabarito Mais questões de Português

Outras questões de Sintaxe