Questão de Sintaxe — FCC · 2025

PortuguêsSintaxeTermos da oraçãoFCC2025DPE-RSMédia
Todas as sociedades definem implicitamente uma legitimidade da dor que se antecipa a circunstâncias sociais, culturais ou físicas tidas como difíceis. Uma experiência acumulada do grupo leva seus membros a uma expectativa do sofrimento habitual imputável a esses fatos. A intervenção cirúrgica ou dentária, as sequelas de ferimento etc. são precedidas pelo comentário experiente dos que já passaram pela mesma situação e se apressam em dar sua impressão ou seu conselho. O médico pode sugerir a intensidade da dor pela qual o paciente passará. Cada experiência, cada doença, cada lesão é associada a uma margem difusa de sofrimento. A sociedade indica simbolicamente os limites do licito e, fazendo isso, esforça-se por dissuadir dos possíveis excessos. A expressão individual da dor penetra no cerne de formas ritualizadas, alimentando a expectativa de suas testemunhas. Quando um sofrimento exibido parece desproporcional em relação à causa e ultrapassa o limite tradicional, desconfia-se de complacência ou de fingimento. A reputação do ator está então em jogo. Nos casos em que é obrigatório aguentar o sofrimento com firmeza, o homem oprimido pela dor e que não corresponde à expectativa dos outros através de sua propensão à queixa e às lágrimas, expõe-se à reprovação muda ou à exortação para que se comporte melhor. Essa discrepância em relação à discrição habitual provoca atitudes opostas àquelas desejadas pelo doente: a compaixão dá lugar ao constrangimento ou à incompreensão. Inversamente, quando a ritualização da dor pede a dramatização, compreende-se mal quem interioriza seu sofrimento e não diz nada a ninguém. Se a queixa tem valor de linguagem que confirma aos próximos o beneficio de sua presença à cabeceira do doente, sua discrição parece negar a compaixão demonstrada em seu favor. Impenetrável apesar da dor que se supõe estar sentindo, o doente parece afirmar a insignificância daqueles que se apinham ao seu lado. Sua aparente capacidade para assumir sozinho e em silêncio sua provação frustra a família, que não espera senão a queixa para prodigalizar consolo e apoio. A dor tem ritos que não são transgredidos sem o risco de indispor ou de ofender as pessoas de boa vontade. Mesmo no horror do que está sentindo, o homem sofredor segue o caminho que as tradições lhe traçam. (Adaptado de: LE BRETON, David. Antropologia da Dor. São Paulo: Fap-Unifesp, 2013, p. 110-111) De acordo com o texto,
  1. Aa experiência do sofrimento, independente de sua natureza, é culturalmente regulada e, por isso mesmo, submetida a critérios éticos de valoração.
  2. Ba ritualização da dor é uma forma de minimizá-la, tornando-a suportável em contextos de exacerbação, ou simbólica, em contextos de sofrimento psicológico, garantindo assim sua adequação social.
  3. Cé quando se ultrapassam os limites aceitos para a expressão da dor, que ela vem a ser considerada de natureza cultural, a ponto de comparar-se a pessoa que a experimenta a um ator.
  4. Do sofrimento, por mais que esteja associado a limites difusos, e culturalmente ritualizado, como uma pratica que transcende seus aspectos físicos, a fim de servir de parâmetro para a experiência do próximo.
  5. Eainda que a experiência da dor seja parte incomunicável da subjetividade de cada um, seu regramento social se torna peca-chave tanto para a prática médica, como para os cuidados familiares.

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