PortuguêsInterpretação de TextoIdeia centralFUMARC2025Pref. Japaraíba-MGMédia
Para responder à questão, leia o texto a seguir:
Variação e mudança
Sírio Possenti
A maioria absoluta dos brasileiros - talvez não só os brasileiros - alfabetizados
ou letrados tem uma ideia completamente equivocada do que seja uma língua.
Para eles, língua é a que a escola ensina, ou o que está nos manuais do tipo
"não erre mais". O resto é erro. Todos consideram que as variantes são erros.
Ocorre que o que a escola ensina também é mais ou menos variado. E depende muito também do desempenho linguístico dos professores. Como eles
são membros da sociedade, são afetados pelas mudanças que a língua sofre
com o correr do tempo, de forma que seu "português" é, de alguma forma, o
português de seu tempo. O que não é necessariamente ruim.
Isto quer dizer que o português que os professores falam e mesmo o que escrevem não é necessariamente o português dos livros adotados nas escolas.
O que vale para professores de português vale também para os das outras
disciplinas, claro. E vale também para os jornalistas e para as personalidades
que eles entrevistam, tenham elas a formação que tiverem (em geral, são especialistas em alguma coisa, sempre especialistas). É só ouvir os debates ou
os programas de entrevistas para verificar isso.
Dou dois exemplos banais. Duvido que haja 10% de professores ou falantes
letrados que profiram o dito futuro (aplicarei minha poupança em ações da
empresa X). Todos dizem "vou aplicar". Outro exemplo? Quase ninguém diz
"nós". Diz-se "a gente". Como pouco se diz "tu", exceto em algumas regiões,
a conjugação verbal do futuro é
Eu vou aplicar
Você vai aplicar
Ele/ela vai aplicar
A gente vai aplicar
Vocês vão aplicar
Eles/elas vão aplicar.
Ou não é? Quem não fala assim que atire a primeira pedra. Não vou dizer (!!)
que todos falam sempre assim porque sei que uma língua sempre apresenta
variação. Alguns entrevistados, ou jornalistas, dirão (!!), talvez, de vez em
quando, no meio da conversa, "falaremos disso na próxima entrevista", claro,
sendo mais formais. Em compensação, alguns também dirão "vamo falá disso
na próxima veiz", sendo bem mais informais. E ninguém nota que falou errado
durante a entrevista. Por quê? Porque ninguém fala errado mesmo! Isso não
é erro. Esse é o português falado culto do Brasil hoje. É um fato. Só isso.
Numa certa ocasião, fui entrevistado por uma emissora de TV (eu no estúdio
e um folclorista em outra cidade). Argumentava que a linguagem popular não
tinha nada de errado, era só diferente, e era enfrentado pela apresentadora
que "defendia nossa língua". Para dobrá-la, só me restou um recurso: ficar
atento ao que ela dizia e citar os "erros" que ela ia cometendo, segundo os
próprios critérios dela. Ficou meio sem jeito, e eu tive que insistir que ela falava
corretamente... o português real (e que aquele que ela defendia não existe
mais, pelo menos na fala).
O que muita gente não entende - ou não quer entender, porque significaria
perder uma boa teta! - é que a variação tem tudo a ver com a mudança.
Todos acham normal que aquila tenha derivado para águia, que asinus tenha
derivado para asno (tem muita coisa mudada aí, mas o básico é que a palavra
latina proparoxítona se torna paroxítona), mas acham ridículas formas como
fosfro (para fósforo), corgo (para córrego), xicra e chacra (para xícara e chácara), embora a regra antiga que explica a mudança e a atual que explica a
variação sejam a rigor a mesma (os falantes seguem regras, não erram!!!),
sem contar que dizem, numa boa, sem se dar conta do que fazem, xicrinha e
chacrinha. Quá!
Variação tem tudo a ver com mudança. Mas, se entendêssemos isso, muita
gente perderia uma grana preta!!
Fonte: http://www.cataphora.com.br/2010/03/variacao-e-mudanca-sirio-possenti_8437.html (Acesso em: 25 set. 2024).
Assinale a afirmativa CORRETA :
AEm ‘fosfro (para fósforo), corgo (para córrego), xicra e chacra (para xícara
e chácara)’, ocorre um metaplasmo denominado síncope, que é a supressão de som no meio da palavra, tornando as palavras proparoxítonas em
paroxítonas.
BNo uso de ‘A gente’ no lugar de ‘nós’, ocorre uma variação fonética/fonológica, bem como na utilização de ‘nóis’ para ‘nós’.
CO uso de ‘A gente’ no lugar de ‘nós’ traz uma complicação para o sistema
pronominal já que a conjugação verbal pode mudar e o falante natural da
língua pode não saber o momento de realizá-la de forma correta.
DO uso de ‘vai aplicar’ no lugar de ‘aplicará’ é mais coloquial e pouco aceito
pelos falantes da língua portuguesa do Brasil.
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