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Texto: O
TRABALHO HUMANO ESCONDIDO ATRÁS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Uma busca por fotos de um labrador com a língua de fora ou um pedido de
informação por voz a um assistente digital no celular são exemplos simples de
como a inteligência artificial faz parte do nosso cotidiano. Pouco se sabe, ou
se divulga, que por trás da ação do computador em tarefas desse tipo existe o
trabalho de pessoas de carne e osso. Ao redor do mundo, existem milhões de
indivíduos realizando tarefas, chamadas de “microtrabalhos”, que os
computadores ainda não têm capacidade de executar.
Mas não é apenas essa a questão: em muitas situações, os humanos
simplesmente custam mais barato. “Usar um humano para fazer o trabalho permite
que você pule uma porção de desafios técnicos e de negócios”, declarou Gregory
Koberger, CEO da ReadMe, empresa criadora de um aplicativo de produção de
documentos técnicos. De acordo com Rafael Grohmann, pesquisador do Centro de
Pesquisa em Comunicação e Trabalho da USP, a prioridade desse trabalho é,
basicamente, alimentar a inteligência artificial. “Eu teria dificuldade de
encontrar uma empresa que se vende como sendo de inteligência artificial e que
não dependesse muito ou profundamente de ‘trabalho fantasma’ para gerar seu
principal produto”, afirmou Mary Gray, pesquisadora da Microsoft e autora do
livro Ghost work [“Trabalho fantasma”, em português].
“Acesse uma força de trabalho global, sob demanda, 24 horas por dia, sete
dias por semana”, anuncia logo na entrada o site Mechanical Turk [“turco
mecânico”, em português], da gigante de varejo Amazon. Nele, tanto usuários se
candidatam a trabalhos digitais como empresas buscam pessoas para tarefas
específicas. O nome dessa feira de trabalhos da Amazon é irônico. O “mechanical
turk” original era uma fraude do século 18, em que um autômato que supostamente
sabia jogar xadrez de forma brilhante era na verdade manipulado por um
enxadrista escondido sob o móvel do tabuleiro. Esses sites incluem atividades
como preencher formulários, responder a pesquisas ou redigir textos descritivos
para produtos em sites. Mas a maior parte das tarefas está mesmo ligada à inteligência
artificial, como identificação de imagens, melhoria do desempenho da assistente
digital Alexa, reservas em restaurantes, além da elaboração de conjuntos de
dados (preenchimento dos campos em tabelas de maneira que depois possam ser
lidas e interpretadas por programas de computador, uma das tarefas mais
utilizadas por empresas de tecnologia).
As atribuições costumam ser de curta duração, algumas levam meros
segundos. O motivo é que são, em geral, divididas em fragmentos pequenos, como
uma espécie de linha de montagem digital em que cada trabalhador cuida de um
parafuso específico. Os valores pagos também são baixos: há inúmeras atividades
que rendem 10 centavos de dólar de pagamento. Não há necessidade de supervisão
direta, e não costuma haver contato com outro ser humano. Dos cerca de 200
países do mundo, a plataforma Mechanical Turk só aceita trabalhadores de 49.
Cerca de 50% são dos Estados Unidos e 40% da Índia, de acordo com um
levantamento americano de 2018.
À primeira vista, os sites que oferecem esse tipo de trabalho parecem uma
mina de oportunidades. Apesar de existir há mais de uma década, trata-se de um
contexto de trabalho muito pouco regulado ao redor do mundo. No Brasil, não há
legislação que contemple a modalidade. A necessidade de criar um arcabouço
legal para o setor é uma demanda de especialistas que estudam o tema. Na
França, pesquisadores do projeto Diplab, que levanta e produz dados sobre a
área, consideram prioritário o fortalecimento da proteção social, “às vezes
inexistente” dessa força de trabalho. “Como garantir que a contribuição dos
trabalhadores para a inovação tecnológica seja reconhecida em seu valor real?”,
indagam.
Com uma força de trabalho pulverizada por vários pontos do mundo e raro
contato físico entre contratados, é muito difícil se organizar para reivindicar
melhorias. Na Índia, um grupo de trabalhadores do Mechanical Turk conseguiu
pressionar a Amazon para que resolvesse uma falha no sistema de pagamentos. Nos
Estados Unidos, “turkers” insatisfeitos conseguiram formar uma associação de
trabalhadores de plataformas junto com acadêmicos, demandando pagamento melhor
e maior diálogo com as empresas. É fato que a Amazon reagiu encerrando uma
conta do grupo dentro do Mechanical Turk. Além de servir de locais para trocas
de dicas e tarefas, essas associações também são usadas para organização. Se
uma empresa rotulava incorretamente as tarefas (como pesquisa, por exemplo, mas
era qualquer coisa menos isso), os trabalhadores faziam contato, pedindo
ajuste.
CAMILO ROCHA
Adaptado de nexojornal.com.br, 28/12/2023.
A palavra “escondido”, presente no título, é
reformulada no 2º parágrafo, pela palavra
“fantasma”. No texto, tais palavras são exemplos da seguinte
figura de linguagem:
Ahipérbole e metáfora, respectivamente
Bmetáfora e hipérbole, respectivamente
Chipérbole, em ambos os casos
Dmetáfora, em ambos os casos
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