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BRASILEIROS CRIAM BIOPLÁSTICO FEITO DE ALIMENTOS
A preocupação com o impacto ecológico do
descarte de plásticos tem impulsionado pesquisas que
aliam sustentabilidade à inovação. Uma delas é
conduzida por pesquisadores do Instituto de
Macromoléculas da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (IMA-UFRJ), que querem transformar o
mercado de embalagens a partir de alimentos como
linhaça, alho, pimenta e chia.
A promessa são bioplásticos produzidos com
compostos bioativos extraídos de alimentos
funcionais e que se degradam em questão de meses.
Compostos bioativos são moléculas de
origem natural que desempenham diferentes papeis,
como atividade antioxidante, estimulação do sistema
imunológico, equilíbrio do nível hormonal e atividade
antibacteriana e antiviral.
“Essa ideia surgiu por causa dos benefícios
que os bioativos têm para a nossa saúde”, explica a
professora Maria Inês Tavares, coordenadora do
projeto. “Por que não utilizá-los para embalagens
alimentícias, mantendo sua biodegradabilidade?”
A invenção já está em processo de
patenteamento e, além de mais sustentável – segundo
os pesquisadores, a extração não envolve o uso de
solventes prejudiciais ao meio ambiente –, promete
ainda prolongar a vida útil de alimentos.
O grupo aposta que a descoberta possa ser
uma alternativa importante para a substituição de
embalagens comuns. Segundo a Organização das
Nações Unidas (ONU), esse setor é o principal
responsável pela geração de resíduos plásticos
descartáveis globalmente.
Cerca de 36% de todo o plástico produzido
destina-se a embalagens, incluindo recipientes
descartáveis para alimentos e bebidas. Destes, 85%
acabam em aterros sanitários ou como lixo mal
gerenciado.
Os pesquisadores da UFRJ afirmam que suas
embalagens têm propriedades antioxidantes e
protetoras que prolongam o tempo de prateleira dos
alimentos e reduzem o desperdício.
Mariana Alves, pesquisadora e integrante da
equipe, destaca os resultados do trabalho: “A
embalagem aumentou o tempo de prateleira dos
alimentos testes em torno de 16 dias fora da
refrigeração e 14 dias na geladeira. Ela oferece
resistência de barreira semelhante aos plásticos
tradicionais, mas se decompõe em aproximadamente
180 dias em condições ambientais favoráveis,
preferencialmente em sistema de compostagem.”
Durante o processo de decomposição do
bioplástico, os cientistas monitoraram a segurança
ambiental e as mudanças nos materiais, e concluíram
que os bionanocompósitos – materiais criados a partir
da combinação de elementos em escala nanométrica
– não liberam substâncias tóxicas.
“Os polímeros biodegradáveis são
transformados em CO2 e água na natureza por micro-organismos, ao contrário dos plásticos comuns, que
apenas diminuem de tamanho, formando
microplásticos que continuam poluindo o ambiente”,
explica Alves.
A escolha da matéria-prima para a confecção
do bioplástico também foi estratégica, evitando a
demanda por alimentos básicos da dieta humana e
explorando materiais como folhas e frutos que
crescem rapidamente.
“No caso da chia, ela tem um potencial
antioxidante muito grande, principalmente nos
extratos da semente”, afirma Alves.
“Vale ressaltar que os bioplásticos têm
diferentes materiais que podem fazer parte da
composição, mas a degradabilidade dele no meio
ambiente não produz nenhum malefício no meio
físico, nem na atmosfera, nem no solo, nem na água e
não contamina os recursos hídricos”, diz Leonardo
Duarte, especialista em bioplásticos e professor da
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
(UFRRJ), que não participou da pesquisa.
Além do setor alimentício, a pesquisa abre
portas para aplicações em áreas como saúde,
tecnologia e moda. Nesta última, ainda segundo a
ONU, cerca de 60% das roupas são confeccionadas
com materiais plásticos, incluindo poliéster, acrílico
e nylon.
“Estamos animados com a versatilidade dos
nanocompósitos e suas múltiplas aplicações. Isso
reforça o potencial transformador dessa tecnologia
para substituir materiais não renováveis em larga
escala”, afirma Tavares, chefe do projeto. Ela lista, entre possíveis usos futuros, próteses, filtros e
acessórios biodegradáveis.
Um estudo recente do Laboratório Nacional
de Biorrenováveis (LNBR) da Unicamp publicado na
revista Nature mostra que o Brasil pode substituir
plásticos derivados do petróleo por bioplásticos até
2050, sem aumentar o desmatamento ou degradar o
meio ambiente.
Atualmente, os bioplásticos representam
cerca de 0,5% das mais de 400 milhões de toneladas
de plástico produzidas anualmente, segundo a
associação European Bioplastics, que representa a
indústria do setor.
No Brasil, onde os resíduos plásticos urbanos
somaram 13,7 milhões de toneladas em 2022 — o
equivalente a 64 quilos por habitante, segundo a
Associação Brasileira de Empresas de Limpeza
Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) —, ainda
faltam dados oficiais sobre a produção ou
comercialização de bioplásticos.
Apesar disso, especialistas ouvidos pela
reportagem apontam um aumento expressivo na
demanda pelo material, impulsionado pela pressão de
consumidores e mercados globais por alternativas
sustentáveis.
Um deles é o professor Duarte, líder do grupo
de engenharia e monitoramento de biossistemas da
UFRRJ. Ele estuda o segmento há mais de 20 anos e
desenvolveu um bioplástico feito a partir de resina de
babosa (aloe vera) combinada com amido de batatadoce, ambos cultivados de forma orgânica.
Segundo ele, a biodiversidade brasileira é um
diferencial significativo para o desenvolvimento de
bioplásticos. “Essa riqueza aumenta nossa chance de
obter resultados variados e materiais inovadores.
Cada região do Brasil pode desenvolver soluções
específicas, explorando sua matéria-prima local. Isso
enriquece a pesquisa e reforça nosso papel no cenário
internacional.”
Por outro lado, Cristiane Siqueira, doutora em
engenharia de processos químicos e bioquímicos e
coordenadora do mestrado em Ciências Ambientais
da Univassouras, no Rio de Janeiro, pondera que
desafios estruturais limitam a cadeia produtiva de
bioplásticos no país.
“Temos grande potencial graças à
disponibilidade de matérias-primas, como resíduos
agroindustriais. Contudo, os principais gargalos
incluem o custo elevado, a infraestrutura insuficiente
para descarte adequado e a falta de conscientização
do consumidor e da indústria”, avalia.
Embora o Brasil já tenha iniciativas de uso de
bioplásticos, como em embalagens de cosméticos, escovas de dente e cápsulas de café, Siqueira enfatiza
que muitos projetos permanecem no universo
acadêmico ou no estágio experimental de empresas.
“Uma parcela reduzida alcança o consumidor
final. É necessário investir em políticas públicas e
incentivos para viabilizar a aplicação em larga escala,
especialmente em áreas como a médica, onde o
impacto pode ser ainda maior”, diz.
Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/pesquisadoresbrasileiros-criam-bioplástico-feito-de-alimentos/a-71121053>. Adaptado. Acesso em: 20 de setembro de 2025.
Assinale a alternativa que apresenta a função sintática
do termo destacado em: “Ela oferece resistência de
barreira semelhante aos plásticos tradicionais ”.
AAdjunto adnominal.
BObjeto indireto.
CAdjunto adverbial.
DComplemento nominal.
EAposto.
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