PortuguêsSintaxeTermos da oraçãoIBAM2025Pref. Cachoeiras Macacu-RJMédia
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a
pensar nos manuais utilizados na escola, cheios
de regras e exceções. Este é realmente um tipo de
gramática entre outros. Antes, porém, de
pensarmos em gramática como um compêndio
que traz algum tipo de informação sobre
determinada língua, é preciso lembrar um conceito
de gramática que se sobrepõe a todos os outros.
É aquilo que se costuma chamar de gramática
internalizada, cuja aquisição se dá de forma
natural, durante a infância, à medida que a criança
é exposta aos dados de sua língua materna no
meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por
volta dos cinco anos, a criança tem todos os
valores de sua gramática fixados. Embora seu
desempenho revele aspectos da fala que lhe
serviu de fonte (de seus pais, parentes,
cuidadores, etc., tais como supressões ou
inserções de segmentos, como em “made[y]ra”,
“do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles
me contou[contaram]”), todos adquirem as
mesmas propriedades abstratas, no que se refere,
por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do
sintagma nominal, dentro da oração, dentro do
período; à constituição silábica; ao conjunto de
melodias de sua língua; entre outros aspectos.
Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o
João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo
falante do português rejeita essas estruturas, sabe
que elas não são estruturas gramaticais, e esse
conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o
indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar
o contato com outras estruturas e levá-lo, através
da “aprendizagem”, a utilizar formas que não
fazem parte da sua língua interna, mas que podem
aparecer quando ele escreve ou quando
monitora/controla sua fala em situações mais
formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam
um modelo de gramática que continua uma
tradição gramatical europeia, pautada no modelo
iniciado por gregos e continuado pelos romanos,
que buscavam descrever a língua de sincronias
mais antigas, que surgia em textos indecifráveis.
Essas descrições eram feitas com base nos
autores considerados “clássicos” e procuravam
tomar como modelo de “bom uso” a gramática de
sincronias anteriores. Essa tradição continuou
durante a Idade Média, ainda que se renovando no
Renascimento, quando as línguas vernáculas da
România se impuseram naturalmente sobre o
latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos
“clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas
gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente
porque remontam a uma tradição milenar) como
normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático
deixa de “descrever” e passa a elencar as
“normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais
antigas uma consistência teórica de que não se
dispunha quando da sua preparação. Muitas
delas, entretanto, têm sido reeditadas sem
incorporar os avanços dos estudos linguísticos e
sem atualizar os dados relativos ao uso normal da
escrita.
Deixando de lado a descrição presente em
nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que
elas continuam a ser o ponto de partida das
descrições linguísticas atuais) e voltando às
normas que elas recomendam como reveladoras
do bom uso da língua, é evidente que há uma
imensa defasagem entre o que ali aparece e o que
se pratica efetivamente na escrita contemporânea
– seja porque algumas delas nunca fizeram parte
da gramática do português do Brasil escrito, seja
porque outras caíram em desuso, sendo
substituídas por novos usos, novas normas. É
preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão,
entendem-se aqui as variedades de escrita
veiculada em jornais e revistas de ampla
circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a
escrita produzida por indivíduos escolarizados e
com contato frequente com a escrita. É preciso
ainda lembrar que essa língua escrita não é
uniforme. Embora em menor escala do que a fala,
ela também apresenta significativa variação. E, a
depender do gênero textual, muitos aspectos
gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as
diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a
uma oposição formal versus informal. Lembre-se
de que os gramáticos que chegaram a ver o
florescimento da linguística não estavam ainda
convencidos da precedência da fala sobre a
escrita. Isso criou uma grande distância entre fala
e escrita, e só os indivíduos que passam pela
escola podem aprender formas ausentes da
“primeira gramática” e “mudar de gramática” em
situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação
de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos
que mais se referem à polidez no tratamento, ao
maior ou menor nível de educação do falante, do
que propriamente à adequação. Um dos exemplos
mais frequentes para os que desejam argumentar
em favor da adequação linguística são as
conversas depois de um jogo de futebol em
oposição a uma comunicação num congresso.
Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando
xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente
injusto com seu time por ter expulsado um jogador
de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do
mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o
exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento
ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e
atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na
mesma situação, um indivíduo português,
independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem
maiores problemas, “mandou-o para fora do
campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do
português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar
“adequação linguística” é afirmar que, “assim como
ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se
pode aprovar certos usos gramaticais em
determinadas circunstâncias. Uma pessoa
minimamente educada não vai a um casamento de
biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile
ontem”, entre outras formas da gramática
brasileira. Só um falante escolarizado ou com um
longo contato com a leitura, portanto muito
treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto
de conseguir fazer essa “mudança de gramática”,
que não se confunde com o uso de gírias,
palavrões ou expressões inadequadas a
determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com
os exemplos que confundem adequação de
linguagem (no sentido de cortesia, boa educação,
se o momento pede, ou desembaraço, desabafo,
irreverência, se o momento é descontraído) com
mudança de gramática. Melhor seria, pois,
abandonar o termo adequação, substituindo-o por
mudança de gramática. E qualquer falante, com ou
sem escolaridade, sabe se comportar de acordo
com o contexto embora não possa mudar de
gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S.
Gramática(s), ensino de português e “adequação
linguística”. Matraga , Rio de Janeiro, v. 22, nº 36,
jan./jun. 2015.
A noção de gramática internalizada, referida pelas
autoras, pode ser associada, originalmente, a um
campo teórico dos estudos de linguagem de
caráter:
Aformalista
Bcognitivista
Cfuncionalista
Dsociointeracionista
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