PortuguêsMorfologiaPronomesAMEOSC2025Pref. São José do Cedro-SCMédia
O texto seguinte servirá de base para responder a questão.
Meu Avô
Mais um dia vou tomar um cafezinho na casa do meu
avô. Esse ritual se repete há quase dez anos, quando
ele voltou do Japão. Eu, que nem gosto de café, faço
questão de ir até lá para roubar do tempo o que o tempo
me roubou.
Vivi dez anos sem meu avô. Dez anos com meu avô.
Parece justo porque são valores iguais. Mas só de
pensar que poderia ter tido mais, um pouco mais... me
descontento com a vida.
Na tentativa de me satisfazer com a realidade que me foi
entregue, busco na memória tudo o que já vivi com ele.
Viajo tão longe no passado que faço uma mistura entre
lembranças reais com criações fantasiosas minhas. Fico
triste por não lembrar de tudo.
Sim, eu sei, lembrar de tudo é sofrimento, e esquecer é
uma graça divina. Afinal, a gente só lembra o essencial porque podemos esquecer o que já não é essencial. Até
agradeço à Deus, à angústia, aos neurônios, sei lá. Mas
também sei que esquecer do essencial é uma tragédia.
Uma tragédia que meu avô vive.
Não esperava que ele lembrasse de todos os detalhes
dos últimos dez anos. Mas não queria que ele
esquecesse meu nome, meu som. Respirando fundo,
1-2-3. Meu avô tem Alzheimer. Uma doença em que as
conexões das células cerebrais se degeneram e morrem,
eventualmente causando a memória e outras funções
mentais importantes.
Meu avô perdeu de vista as lembranças que construímos
desde que ele é. Ele, sem saber o que é, só me permite
amar o que lembro do que ele já foi um dia. Mas as
coisas são como são, não dá para tentar mudar algo
concreto, que está ali na minha frente.
Toco a campainha. Espero que ele se lembre.
MOREIRA, Lorraine. Meu avô. In: MALULY, Luciano Victor Barros;
MUÑOZ, Daniel Azevedo; TÔZO, Carla de Oliveira (org.). Crônicas
para ler e ouvir [recurso eletrônico]. n. 2. São Paulo: ECA-USP, 2023.
Disponível em:
https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1
095/1000/3699 . Acesso em: 2 dez. 2025.
Considerando o emprego do pronome demonstrativo
"esse" no trecho "Esse ritual se repete há quase dez
anos, quando ele voltou do Japão", assinale a alternativa
que apresenta uma análise linguística coerente com a
norma culta.
AO pronome "esse" está empregado de modo
adequado, pois retoma um referente situado no
universo discursivo do narrador, funcionando como
elemento anafórico indireto, mesmo antes da
explicitação imediata do termo correspondente.
BO emprego de "esse" é impróprio, já que o termo
"ritual", por referir-se a hábito retomado
temporalmente no presente, deveria ser introduzido
por "aquele", para indicar distância temporal em
relação ao ato enunciativo.
CO uso do demonstrativo é apropriado, mas o valor é
estritamente catafórico, visto que o referente ainda
não foi mencionado no texto; portanto, a escolha de
"esse" ou "este" seria indiferente na construção
narrativa.
DO uso de "esse" é inadequado, pois a referência a
um elemento que será explicado posteriormente
exige o pronome "este", que possui valor catafórico
exclusivo em situações de apresentação de
informação nova.
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