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Amigos para o bem e para o mal
Vera Iaconelli – Psicanalista
Costumamos dizer que é na hora do perrengue que
se conhece um verdadeiro amigo. Ele seria a pessoa
que não larga nossa mão quando estamos por baixo.
Concordo, desde que se leve em conta o outro lado:
amigo suporta, igualmente, estar com a gente quando
brilhamos. A amizade só se revela no intercâmbio de
posições e em diferentes contextos.
Partimos da constatação freudiana de que não há
relação isenta de ambivalência e que o amor e o ódio
andam de mãos dadas. É através do amor que
superamos nossa tendência a controlar ou destruir o
outro por medo de que ele nos controle ou destrua
antes. A paranoia diante da alteridade está sempre
pronta a ser engatilhada; o amor a desarma.
Ele permite que a inveja dê lugar à admiração,
sabendo que a primeira está sempre à espreita. Somos
crianças egocêntricas que só aprendemos a dividir os
brinquedos com prazer sob a condição de um insight:
ser o dono da bola não é tão legal quanto ter alguém
com quem jogar.
Inveja, ciúme, competição, raiva... as amizades vêm
com a paleta completa de afetos humanos, acirrados
pela proximidade, pelo convívio e pela longevidade das
relações. O que as torna especiais é que nelas o
cuidado, a empatia e a intimidade dão mais prazer do
que nossa costumeira mesquinhez. Daí que ver o
amigo brilhar, quando não consideramos nosso
umbigo o centro do universo, pode ser fonte de um
genuíno prazer.
Da mesma forma, vê-lo sofrer é dilacerante (e
perdê-lo, impensável). A condição para ser um amigo
digno do título é que o sadismo diante do sofrimento
alheio não roube a cena. Reitero que não existe aqui
nenhuma expectativa de que sejamos seres
superiores, livres das limitações humanas, mas que o
amadurecimento nos permite reconhecê-las, evitar
que transbordem em atos danosos e, acima de tudo,
desfrutar do prazer de amar e ser amado pelo outro.
O mesmo critério deveria servir para familiares,
conhecidos e colegas. Mas estes têm que galgar
muitos degraus para receber o especialíssimo título de
amigo. A amizade é contingente e implica trocas
íntimas e duradouras nas quais podemos nos fiar,
quase sempre. Amigos também comem bola, mas
ganham no saldo final e por insistência.
Nossos amigos não precisam ser as melhores
pessoas do mundo. Basta que sejam as melhores
pessoas do nosso mundo. Isso permite que mesmo os
bizarros, os malas sem alça e os perdidos de plantão
tenham direito a relações significativas na vida.
(Considerando que todos somos um pouco bizarros,
malas e perdidos, é bom que haja quem nos aguente.)
[...]
No fim das contas, amigo mesmo é aquele que
sobrevive ao nosso lado na alegria e na tristeza, na
saúde e na doença, sem sadismo nem inveja demais,
e com disponibilidade amorosa ao longo da vida.
Adaptado
de:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2025/10/amigos-para-o-bem-e-para-o-mal.shtml). Acesso
em: 22 nov. 2025.
Assinale a alternativa que analisa corretamente a
formação de palavras presentes no texto.
AEm “verdadeiro”, o sufixo “-eiro” veicula o mesmo
sentido que em “brasileiro” e “mineiro”.
BEm “especialíssimo”, o sufixo “-íssimo” modifica o
sentido de “especial”, atribuindo-lhe efeito de
intensificação, o que gera, por consequência,
alteração na classe gramatical.
CAs palavras “impensável” e “duradouras” são
formadas pelo acréscimo do prefixo “im-” e
“dura-”, respectivamente.
DEm “egocêntricas”, o radical “ego” é o mesmo que
está presente na palavra “egoísta”.
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